Transcendência
Durante um curso sobre Liderança Moral em 2000 na Bolívia, aprendi que um dos meios de se fomentar a transcendência é conhecer a história de pessoas que colocaram ideais universais acima de seus próprios interesses pessoais. Esse é o caso de Aung San Suu Kyi.
Através de uma notícia no site da MTV, fiquei sabendo que será lançado um CD (com músicas de bandas como Pearl Jam, Coldplay, R.E.M. e outros) para ajudar a "Campaign For Burma", que possui como uma de suas metas a libertação de Aung San Suu Kyi e outros ativistas pró-democracia, mantidos presos em Burma por lutarem por esse ideal.
Li no site http://www.uscampaignforburma.org, que o governo militar nesse país existe há 15 anos. Em 1988 houve uma manifestação pelo fim do autoritarismo, quando milhões de pessoas marcharam corajosamente pelas ruas, clamando por liberdade e democracia. O governo reagiu violentamente, escrevendo um capítulo sangrento na história recente de Burma.
Desde então, a líder da manifestação, Min Ko Naing e a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, e outros cerca de 1400 ativistas, tem sido mantidos presos.
O governo militar, preocupado com a manutenção do poder, anunciou eleições democráticas. Aung San Suu Kyi e diversos aliados formaram um partido político (National League for Democracy), que ganhou as eleições em 1990 mas nunca chegou a assumir o poder, impedido pelo governo.
Em Maio de 2003, o governo anunciou que Aung San Suu Kyi não mais estava presa. No entanto, ela declarou não aceitar sua liberdade enquanto os cerca de 30 outros prisioneiros políticos não fossem também libertados.
Esse espírito parece também guiar seu colega de luta, Min Ko Naing, que apesar dos anos de prisão - sofrendo torturas e passando muitos anos confinado em solitárias - recusou as diversas tentativas do governo militar de 'quebrar seu espírito', oferecendo-lhe liberdade em troca de sua desistência em atuar no movimento democrático. Em 1994, Bill Richardson, do Congresso americano, visitou-o na prisão e ofereceu-lhe passagem para os Estados Unidos em troca de sua liberdade. Min Ko Naing recusou.
Esse comprometimento com os ideais mais profundos e essa renúncia ao bem-estar individual imediato em favor a uma luta que transcende desejos individuais, pode ser visto também na posição da comunidade bahá'í iraniana frente aos duros obstáculos impostos pelo governo do país, por causa de seu não reconhecimento da religião bahá'í como religião oficial. Os bahá'ís no Irã vem sofrendo ao longo dos anos perseguições violentas, privações e assassinatos pelo simples fato de declararem-se seguidores da religião bahá'í. A Comunidade Bahá'í Internacional têm acompanhado de perto e denunciado às Nações Unidas as contínuas violações dos direitos humanos no país, delatando as ações do governo como o a proibição do acesso dos bahá'ís às universidades e a destruição indiscriminada de casas que pertenceram à figuras centrais bahá'ís.
Recentemente conversei com uma bahá'í iraniana pela internet. Ela contou-me um pouco de como isso afeta sua vida. Seu pai, quando ela era criança, ficou por muitos anos preso, sendo que diversos dos bahá'ís presos com ele, foram sentenciados à morte. Seu desejo é trabalhar dando aulas para crianças, mas o governo não permite que bahá'ís exerçam essa atividade, bem como ocupem cargos públicos. Nas reuniões bahá'ís, não é permitido haver mais de 20 pessoas reunidas. Apesar de tudo isso, eles se mantêm firmes à suas crenças, recusando-se a renunciar sua religião - o que eliminaria todas essas dificuldades impostas pelo governo.
Talvez, nós ocidentais, tenhamos dificuldades em entender essa posição. Um colega me perguntou: "Por que eles apenas não mentem? Preenchendo suas inscrições na faculdade como muçulmanos e recusando admitirem serem bahá'ís quando perguntados?". Acredito que tanto o exemplo dos ativistas pró democracia em Burma - como Aung San Suu Kyi - e dos bahá'ís no Irã - como Tahirih -, demonstram o quanto eles trazem de comprometimento com suas mais profundas crenças, sendo impossível a eles renunciarem à sua consciência por qualquer imposição externa. Dessa resistência nasce também a proliferação desses ideais: tanto o caso dos bahá'ís no Irã quanto dos ativistas pró-democracia em Burma tornaram-se mundialmente conhecidos por causa dessa posição dos envolvidos, e ganharam apoio e reconhecimento internacional. Há nisso também o exemplo de transcendência deixado à posteridade, de que o homem pode encontrar profundo sentido em trabalhar por ideais que vão além de seus próprios interesses, profundamente conscientes de seu papel na sociedade.
"Tahirih (1817-1852) marcou o século passado com transcendente heroísmo. Filha de um sacerdote muçulmano, tornou-se famosa pela conjugação da beleza, eloquência e sabedoria. Abandonando o uso do véu, a despeito do costume milenar entre as mulheres de sua pátria, o Irã, e participando de acalorados debates sobre temas místicos e espirituais, acumulou seguidas vitórias contra os expoentes masculinos mais representativos do pensamento de seu tempo. Tendo o governo iraniano lhe aprisionado, apedrejada nas ruas, exilada de cidade a cidade, anatematizada, correndo risco de vida, foi incansável na defesa dos direitos de suas irmãs de sexo. A um ministro da corte do Irã, em cuja casa estava encarcerada, foi incisiva: 'Podeis me matar, mas não podeis impedir a emancipação da mulher!'"
-- do artigo Um Pássaro Chamado Humanidade
"The way of democracy is to create mutual trust and understanding through free and open discussion and debate. It is by this way that we can learn to settle our differences without resorting to compulsion or violence and to weld unity out of the diversity that is the wonder of our human world. People may be compelled to act against their inclinations, they may be bribed to set aside their conscience. But they cannot be forced to give their hearts and minds to any cause that they do not truly believe to be worthwhile."
-- Trecho do discurso proferido por Daw Daw Aung San Suu Kyi, por ocasião do recebimento do 5th. Annual Gandhi Award. (Outubro de 1995)
"Please, use your liberty to promote ours." (Aung San Suu Kyi)
"Tahirih (1817-1852) marcou o século passado com transcendente heroísmo. Filha de um sacerdote muçulmano, tornou-se famosa pela conjugação da beleza, eloquência e sabedoria. Abandonando o uso do véu, a despeito do costume milenar entre as mulheres de sua pátria, o Irã, e participando de acalorados debates sobre temas místicos e espirituais, acumulou seguidas vitórias contra os expoentes masculinos mais representativos do pensamento de seu tempo. Tendo o governo iraniano lhe aprisionado, apedrejada nas ruas, exilada de cidade a cidade, anatematizada, correndo risco de vida, foi incansável na defesa dos direitos de suas irmãs de sexo. A um ministro da corte do Irã, em cuja casa estava encarcerada, foi incisiva: 'Podeis me matar, mas não podeis impedir a emancipação da mulher!'"
"The way of democracy is to create mutual trust and understanding through free and open discussion and debate. It is by this way that we can learn to settle our differences without resorting to compulsion or violence and to weld unity out of the diversity that is the wonder of our human world. People may be compelled to act against their inclinations, they may be bribed to set aside their conscience. But they cannot be forced to give their hearts and minds to any cause that they do not truly believe to be worthwhile."
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